TATUAGEM E TALENTO
Os bastidores do poder no Japão


As duas biografias retratam lados opostos - mas igualmente interessantes - da vida no poder do Japão
Como falar de livros, cinema e arte em geral é sempre agradável, resolvi quebrar o ''jejum'' do blog (perdoem-me pela ausência dos últimos dias, queridos leitores!) apresentando para vocês dois best sellers que vêm causando polêmica aqui no Japão, sobretudo porque abrem uma “janela indiscreta” para o mundo extremamente fechado - mas inevitavelmente interessante - de duas entidades que representam o poder no país: a família imperial e a Yakuza.
O mais recente deles, Yakuza na Tsuki (o titulo em inglês é Yakuza Moon: Memories of a Gangster’s Daughter), é uma biografia escrita pela filha de um ex-chefão do grupo criminoso Yamaguchi-gumi, maior facção da máfia japonesa. A obra é assinada por Shoko Tendo, uma mulher bonita, de cabelos vermelhos e coberta de tatuagens pelo corpo – característica que identifica a maior parte dos membros da Yakuza, passado que hoje ela faz questão de renegar.
O livro de Shoko, que começou com uma tiragem tímida de apenas 1,5 mil exemplares, já bateu a casa dos cem mil títulos vendidos. A explicação para o sucesso é simples: a obra conta com detalhes a vida de uma ex-princesa do crime, que se afundou nas drogas, cumpriu pena em um reformatório juvenil e precisou se tornar amante de mafiosos para saldar dívidas do pai com a organização. O chocante disso tudo é que ela tinha apenas 16 anos.
A japonesa, agora uma mãe solteira de 39 anos que se diz totalmente recuperada, também faz questão de contar os preconceitos que vivia por ser quem era, a solidão no colégio – já que as famílias proibiam seus filhos de se aproximar da "garota-encrenca" - além das surras que levava dos namorados, membros da Yakuza como ela. Sem falar das tentativas de suicídio depois da morte da mãe, quando a escritora tinha apenas 22 anos. Quem souber japonês e quiser saber mais sobre a vida de Shoko, pode dar uma passadinha no blog da escritora.
O outro livro do qual mencionei, longe do mundo do crime, mas também na esfera do poder, é uma biografia não-autorizada da princesa Masako, escrita pelo jornalista australiano Ben Hills. A obra, intitulada de Princess Masako, Prisoner of the Chrysanthemum Throne (em português, Princesa Masako, Prisioneira do Trono do Crisântemo), foi alvo de inúmeros protestos de grupos políticos de extrema direita antes de ser editada em japonês pela Dai-san Shokan, em agosto último.
Tanto o autor quanto a editora sofreram ameaças para não lançar a obra, que se mostrou bastante popular em alguns países asiáticos, além dos Estados Unidos e da Austrália. Em seu website, Hills afirma que chegou a receber mensagens anônimas de conteúdo racista, com frases do tipo "morra, porco branco!". Isso sem falar da onipresença de misteriosos carros pretos com slogans nacionalistas que costumavam ficar estacionados em frente à sede da editora, semanas antes do lançamento oficial no Japão.
O governo nipônico, que taxou o livro de difamatório e equivocado, não se eximiu e fez pressão contra a sua publicação no país, levando a primeira editora responsável pela tradução a desistir do negócio, em fevereiro deste ano. Somente quatro meses depois é que Hills conseguiu encontrar outra empresa que topasse levar o desafio à frente.
A biografia tenta pintar a princesa Masako, esposa do príncipe herdeiro Naruhito, como a “Lady Di do Japão”, embora ela não conte com a mesma popularidade que a ex-mulher do príncipe Charles. O autor diz que Masako vive um conto de fadas às avessas, e que a história do infeliz casal é uma versão oriental do que foi vivenciado no trono britânico. Entre os dramas em torno da difícil adaptação da princesa, Hills cita as dificuldades dela para engravidar de sua única filha, tendo que agüentar pressões em silêncio porque não gerou um filho homem, aguardado na família imperial há cerca de 40 anos - herdeiro que nasceu apenas no ano passado, filho do irmão do príncipe Naruhito. Para conferir mais detalhes, que tal dar uma passadinha no site do escritor?
http://shoko-tendo.com/index.html
*As fotos que ilustram este post são da Reuters
Tags: SHOKO
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